10 de junho
Na data em que meu irmão insiste em nos lembrar que foi há três anos para, quem sabe, um dia…, João Gilberto – o mestre – faz aniversário. A morte é cheia de jazz e a vida, de bossa. Nada mal. Nem cá, nem lá.
Uma só nota na saliva
A tabuleta estava colada na janela do botequim. “Hoje, espetos com MPB”. Um bom atrativo se o proprietário do digno estabelecimento nos permitisse sorver, junto do caldo que escorre do assado felino, meia dúzia de acordes do violão de João Gilberto. A saudade que sinto chegaria e passaria a sentir prazer somente no samba. A cada mordida – no ranger sofrido dos dentes durante as cinquenta mastigadas (bem compassadas como um samba que destrói a carne para uma digestão macia) – a nostalgia da vinda da Bahia e o desejo inconsequente de voltar para lá estariam presentificados. O anjo cruel que evoca o felino morto no palito chegaria a provocar desatinos. Um dose de meditação, silêncio, quando um grunido desafinado escaparia da boca, tal qual entidade a baixar em terreiro antigo. Ajoelharia aos pés da primeira cruz que visse em frente – pregada na parede do quartinho embolorado onde os garçons vestem seus uniformes que cheiram à gordura – e pediria em nome de Jesus e Maria. Ninguém é capaz de deter a insensatez dos embates mentais elucidados por uma maldição. A mordida seria cada vez mais voraz. Engoliria uma ferpa. Morena boca de madeira. Não poderia ir para casa antes de curar o estrago causado nas papilas gustativas. Tentaria um curativo de conversa em conversa, com a esperança de recuperar o amor e o sorriso (feliz como uma flor murcha) perdidos. A ferida cicatrizaria no momento em que estivesse próxima à brisa e pudesse compreender a fragilidade dos caminhos cruzados que se precisa perdoar como mais um dos infortúnios desta vida.
Vivo sonhando.
- Garçon! Mais três, com bastante MPB, para este coração vagabundo que ignora os números pares.
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