O Folclore sou eu
Texto publicado na revista BRAVO! – Novembro de 2009 (com ilustrações fantásticas de Marcos Garuti)

Ilustração de Marcos Garuti para BRAVO!
Heitor Villa-Lobos – O Folclore sou eu
Perseguições policiais, comportamento de dom-juan, viagens à floresta amazônica para recolher sons indígenas. Conheça as lendas – e os fatos – que marcam a trajetória de Heitor Villa-Lobos, o maior compositor erudito do Brasil
Por Paula Nadal
O compositor carioca Heitor Villa-Lobos morreu no dia 17 de novembro, há exatos 50 anos, como reiteram as diversas homenagens que se espalham pelo país. Mas quando nasceu? Por um bom tempo, a informação manteve-se envolta em mistério. Biografias de diferentes épocas apontam datas que oscilam entre 1881 e 1891. O enigma deve-se especialmente à peculiaridade de que o músico, considerado o maior autor erudito do Brasil, nunca se importou com a precisão cronológica. Sua carteira de identidade francesa, por exemplo, citava 1891 como o ano em que veio ao mundo. Já seu título de eleitor indicava 1883, e entrevistas concedidas pelo próprio regente mencionavam 1888. Foi o biógrafo Vasco Mariz quem matou a charada. Encontrou o registro fidedigno do nascimento na igreja de São José, onde ocorreu o batismo do artista. O documento exibe a data de 5 de março de 1887.
Em contrapartida, outros aspectos da trajetória de Villa-Lobos continuam incertos. Com graça e entusiasmo, o músico gostava de espalhar lendas sobre si mesmo, descrevendo façanhas que costumavam alçá-lo à condição de super-homem. Agia assim não só para atrair as atenções, mas para reiterar a imagem de gênio revolucionário que o acompanhava. A estratégia surtia efeito porque tinha como lastro um talento e uma produtividade realmente excepcionais. O maestro assinou mais de mil composições ao longo dos 72 anos de vida. Do extenso legado, sobressaem dez óperas, 12 sinfonias, 20 peças para violão e cerca de 200 para piano, um musical da Broadway (Magdalena), os 14 Choros e as nove Bachianas, em que buscou criar uma versão nacional dos Concertos de Brandemburgo, escritos por Johann Sebastian Bach. O regente concebeu ainda suítes, bailados, cantatas, sinfonietas e trilhas cinematográficas. Também incorporou à estrutura da orquestra sinfônica instrumentos percussivos como o reco-reco e o berimbau, ousadia que apenas engrossa uma extensa lista de inovações.
Entre as muitas facetas nebulosas de Villa-Lobos, cultivadas ou não por ele, BRAVO! investigou sete, na esperança de distinguir as fronteiras que separam as lendas dos fatos. Confira o resultado:
1- A LENDA
O artista fugiu de casa com 16 anos, viajou pelo país e recolheu temas folclóricos de cada uma das regiões brasileiras.
Os fatos
De clarinete e violão em punho, o músico saiu mesmo de casa aos 16 anos. Contrariou a vontade da mãe, que desejava ver o filho estudando medicina. Depois de vender uns livros da biblioteca deixada pelo pai e, assim, amealhar algum dinheiro, Villa pediu abrigo à madrinha. Passou, então, a frequentar mais intensamente as rodas boêmias dos chorões cariocas. Sabe-se que permaneceu pelo menos dois anos com o grupo Cavaquinho de Ouro, comandado por Quincas Laranjeira, e chegou a participar de uma homenagem ao aviador Santos Dumont em 1903. À época, já escrevia polcas e valsinhas, que apresentava nos bares, cinemas e cabarés da cidade para engordar o orçamento.
“Sobre as viagens pelo Brasil”, diz o jornalista Toninho Vaz, que pesquisa a vida do maestro com vistas a uma biografia, “não é possível garantir quantas ele realmente fez naquele período.” Há fortes indícios de que se afastou do Rio de Janeiro em 1905 e circulou por Pernambuco, Bahia e Espírito Santo, sustentando-se à custa de pequenos concertos e exibições esporádicas com grupos locais. Segundo Vasco Mariz, durante a jornada, o compositor teria anotado temas musicais que considerava interessantes em um código semelhante à taquigrafia. Essas anotações, ao que parece, inspiraram o Guia Prático, uma vasta antologia de canções populares infantis elaborada entre 1932 e 1936.
Outros relatos alimentam a tese de que, também no começo do século 20, Villa-Lobos visitou o Mato Grosso e Goiás. Não existe, porém, comprovação dessas viagens.
2- A LENDA
O regente formou-se no Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro. Fez, ainda, cursos de harmonia com os professores Frederico Nascimento e Agnelo França.
Os fatos
Na verdade, o autor pouco estudou em termos formais. Não completou o ensino médio nem se diplomou pelo Instituto Nacional de Música (hoje Escola de Música da UFRJ, a Universidade Federal do Rio de Janeiro). É certo que, em 1904, passou por aquela instituição, mas muito rapidamente, para participar de um curso noturno de violoncelo e solfejo. Pesquisadores não descartam, entretanto, a possibilidade de que tenha assistido a aulas esporádicas em outros lugares.
Foi o pai do maestro, Raul Villa-Lobos, um funcionário da Biblioteca Nacional, quem lhe deu as primeiras lições de violoncelo. Ele também o apresentou à noite fervilhante do Rio de Janeiro e às rodas de choro. Depois da morte precoce do pai, em 1899, o jovem músico seguiu convivendo com instrumentistas legendários da boemia carioca, como Anacleto de Medeiros e Felisberto Marques. Mesmo assim, não deixou de se influenciar pelas vanguardas europeias, principalmente pelos compositores franceses Maurice Ravel e Claude Debussy e, após a década de 1920, pelo russo Igor Stravinsky.
3- A LENDA
Villa-Lobos regeu o primeiro concerto na cidade fluminense de Nova Friburgo, em 1915.
Os fatos
Levantamentos de Toninho Vaz atestam que Villa estreou como maestro no dia 26 de abril de 1908, quando dirigiu uma camerata de 17 músicos no Theatro Santa Celina, já demolido, em Paranaguá (PR). Durante a exibição, fez solos de violoncelo e mostrou uma de suas criações, Recouli. O compositor se fixou em Paranaguá depois de abandonar o Rio por causa das perseguições impostas pela polícia às rodas de choro. De início, refugiou-se em Niterói, na região de Gragoatá, mas acabou embarcando num navio rumo ao litoral paranaense. Lá trabalhou numa fábrica de banana glacê e apaixonou-se pela filha do coronel Elísio Pereira. O pai da moça lhe deu trabalho em sua empresa de navegação, exportação e importação, onde o músico exerceu por um ano e meio a função de caixeiro-viajante.
Cogita-se também que, ao longo da estadia em Paranaguá, Villa-Lobos tenha namorado a filha de um homem chamado Bendazesky, proprietário de uma fábrica de fósforos de duas cabeças algo absolutamente insólito, ainda que verossímil. Especulações à parte, seu retorno ao Rio ocorreu assim que o pai de uma de suas namoradas o expulsou de Paranaguá, sob o argumento de que o regente não seria um bom partido.
4- A LENDA
Em fevereiro de 1922, nos três concertos que conduziu durante a Semana de Arte Moderna, o maestro se apresentou de casaca e chinelo, com o intuito de provocar a plateia.
Os fatos
Realmente, nas três vezes em que subiu ao palco do Teatro Municipal de São Paulo, Villa-Lobos usava um elegante black-tie, sapato social num dos pés e chinelo no outro. Complementava o visual com um guarda-chuva, que lhe servia de bengala.
Vaiada por boa parte do público, a atitude foi vista como iconoclasta . Se houve, a intenção agressiva do gesto certamente derivou de algo mais prosaico: Villa amargava feridas nos pés decorrentes do excesso de ácido úrico. Daí a necessidade do chinelo.
O compositor participou da Semana depois de receber um convite do poeta Ronald de Carvalho e do diplomata Graça Aranha, que o procuraram em sua casa, no Rio. Villa se interessou de imediato pela ideia, mas lamentou não ter como bancar a viagem nem como contratar instrumentistas. Acabou conseguindo um patrocínio, mediado por Paulo Prado, paulistano influente, que obteve doações de empresários e produtores de café.
O artista não escreveu nenhuma peça em especial para os três concertos. Enquanto os regia, enfrentou alguns contratempos engraçados, como a alça arrebentada do vestido de uma violinista, Paulina d’Ambrósio o que levou um sujeito na plateia a gritar “Levanta a fitinha, moça!” e outro a indagar “Alguém tem um alfinete aí?”. Anos depois, em 1957, numa entrevista à revista Manchete, Villa-Lobos declarou que “a Semana de Arte Moderna fez um bem imenso ao romance e à poesia brasileiras, mas não aportou nada à música”.
5- A LENDA
O maestro desbravou a selva amazônica para coletar sons indígenas.
Os fatos
Os únicos registros de uma viagem de Villa ao Norte do país são os programas de concertos realizados em Manaus e Belém, quando tocava com a Companhia de Operetas Luis Moreira, desfeita em 1911. “Se na ocasião o músico incursionou pela selva, não deve ter sido por muito tempo, já que ainda em 1911 ele se encontrou com uma namorada em Fortaleza”, avalia Fabio Zanon, um dos maiores violonistas brasileiros da atualidade e estudioso da trajetória do compositor (o músico toca neste mês em São Paulo; veja na página 87).
Mesmo assim, o regente não se furtava a disseminar histórias sobre suas aventuras pela floresta, principalmente quando estava na Europa. Dizia que, numa expedição científica à Amazônia, índios antropófagos o capturaram, o amarraram, dançaram em torno dele e só o libertaram quando aceitou lhes mostrar algumas de suas composições. Em outra viagem à França, afirmou ter incorporado a uma peça os sons de um grupo indígena extinto. Ao ser questionado sobre como havia descoberto a melodia, dada a inexistência da tribo, respondeu: “Captei-a por intermédio de um papagaio que ainda se lembrava dela”.
Com relação aos sons amazônicos que reproduziu fielmente em várias obras, sabe-se que ele estudou no Rio os fonogramas que traziam canções indígenas recolhidas pela expedição do antopólogo e radialista Edgar Roquette-Pinto. Também consultou os arquivos de seu cunhado, Raul Bormann, que trabalhou durante dois anos como escrivão da expedição do marechal Cândido Rondon.
6- A LENDA
Villa-Lobos teve oito noivas.
Os fatos
Bem-apessoado, o maestro idolatrava as mulheres e cultivava a fama de dom-juan, mas não é muito confiável a informação de que noivou oito vezes. “Nos relatos do compositor, só a primeira das noivas chegou a ter quatro nomes diferentes”, conta Fabio Zanon. O que se pode garantir é que Villa se casou com Lucília Guimarães e, depois, com Arminda Neves d’Almeida, a Mindinha, 25 anos mais nova do que ele. Ao lado da segunda mulher, viveu por mais de duas décadas, até morrer, sem nunca gerar filhos o músico era estéril.
7- A LENDA
O regente figurou entre os principais colaboradores do Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas.
Os fatos
A colaboração se deu realmente, mas apenas no plano musical. Em fins da década de 1930, Villa-Lobos queria retornar à França, onde morou nos anos 20. Sem conseguir realizar o desejo, ofereceu um projeto pedagógico ao governo Vargas e, sob o apoio do ministro Gustavo Capanema, da Educação, instaurou o canto orfeônico como disciplina obrigatória nas escolas brasileiras. “Minha hipótese é de que o compositor se aliou ao Estado Novo devido a uma combinação de dois fatores: a impossibilidade de voltar a Paris e o potencial que ele vislumbrou de se tornar um maestro das multidões”, explica o professor Paulo Renato Guérios, autor do livro Heitor Villa-Lobos O Caminho Sinuoso da Predestinação. “O governo lhe oferecia uma estrutura e um acesso a recursos financeiros que a iniciativa privada se revelava incapaz de fornecer.”
Acesse http://bravonline.abril.com.br/conteudo/musica/heitor-villa-lobos-folclore-sou-eu-510419.shtml para ouvir um podcast que preparei sobre o melhor da agenda em memória do cinquentenário de morte do Villa.
Leia também: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/musica/villa-lobos-violoncelos-devem-soar-como-pandeiros-510421.shtml, escrito pelo maestro Roberto Minczuk.
Palavras Segmentadas e Revistas Cruzadas

Eu, durante o debate na UniBrasil
Aqui vai um link para o blog do IV Ciclo de Debates em Jornalismo e Novas Produções Midiáticas da UniBrasil, em Curitiba, que começou hoje e vai até a próxima quarta, dia 11.
Hoje pela manhã fiz a minha participação ao falar um pouco sobre jornalismo de revista e minha experiência como repórter de cultura, nas colaborações que tenho feito para a BRAVO!
Em breve, comentários.
Gay Talese, definitivamente, não está resfriado
Nada como um Gay Talese para refrescar alguns valores e renovar os votos ideais e profissionais. A temperatura na cidade de São Paulo era de 15º e o auditório da Editora parecia estar um pouco mais frio, não fosse o calor humano das 124 pessoas devidamente sentadas – metade delas, em poltronas reservadas. A mulher ao lado cruzava e descruzava as pernas mal escondidas pela meia três quartos com petit poá. Jornalistas são mesmo barulhentos. 11h06 e nada de o evento começar. Aquele era um encontro para reverberar alguns valores no mínimo pelos próximos vinte anos. O homem já está na casa do 77 e não há como saber quantas chances teremos de vê-lo, lúcido, novamente. Jornalistas são mesmo barulhentos e retardatários. Há sempre os que chegam às 11h20 e insistem em atrapalhar a posição estática dos acomodados para cumprimentar o colega que está justo na última poltrona do canto direito, nas fileiras centrais do auditório. A trilha sonora era um Frank Sinatra – como não poderia deixar de ser para evocar aos inevitáveis clichês da ocasião. Jornalistas são tão barulhentos que Blue Eyes chegaria a fechar os olhos se, de fato, estivesse ali.
Entra o entrevistador um tanto esbaforido e um Gay Talese impecável. O homem tal qual a foto no cartaz, não fosse pela ausência do chapéu a tiracolo. Terno cinza, camisa com listras vermelhas e mafioso colarinho branco, gravata e lenços de estampa discreta. Chiquíssimo. Silêncio. Jornalistas não são mais barulhentos. Apenas os celulares ainda o são. Jornalistas são distraídos. A fala começa com o ranger dos microfones – um ambiente quase paroquial – que não foram previamente testados. Problema posteriormente resolvido e posteriormente recorrente para ser novamente solucionado. Ao que se podia perceber, o atraso fez com que o encontro começasse às pressas. O entrevistador lê um trecho daquele que é o mais famoso perfil de toda a história do jornalismo. É uma pena Frank Sinatra não estar mais resfriado. Foi uma sorte ele estar resfriado em 1965/66. Talese responde com a história da loja de roupas de sua mãe, onde aprendera a ouvir. Lição número um para jornalistas: ouvir. Ouvir, ter paciência, criatividade e inspirar confiança nos entrevistados. Só assim é possível tratar personagens de maneira digna e literária, sem deixar de contar todos os detalhes sórdidos e fascinantes das grandes narrativas do new journalism.
O alegre Talese é dono de uma lucidez invejável. Entende perfeitamente as metáforas da ficção e sabe aplicá-las para “mentir menos” com o jornalismo. Constrói textos como roteiros, cena a cena, e cuida minuciosamente da escolha de cada uma das palavras, com vistas a manter a elegância mesmo quando o perfilado é um “loser“. Como um ficcionista, ele cria pessoas. “I never finish a history in my head“. E escreve, cena a cena, as páginas de seus filmes literários.
Diante dos grandes e dos mambembes, falou sobre o orgulho de ser jornalista (jornalistas são adeptos da autodepreciação para receberem elogios e só conseguem, com isso, depreciar ainda mais o ofício). Falou sobre Frank Sinatra e sobre seus pais. Falou sobre Floyd Patterson e sobre seus pais. Falou do caso Lorena Bobbit que jamais escreveu. É preciso ter mais informações do que se precisa. Talese é um homem sensível como a leve brisa que chacoalhava o cartaz no auditório. Para conseguir confiança, é preciso se impor como uma pessoa digna de respeito. É preciso vestir aquilo que é sua expectativa. As expectativas de Talese são grandes. É preciso ter boas maneiras, e isso se aprende desde o jardim de infância, ou no brechó de sua mãe, ao observá-la ouvir todas aquelas mulheres com parcimônia. É preciso ter um bom começo e um excelente fim. “He never finishes a history in his head“. História sem fim para mim também. Vai reverberar a cada texto, a cada entrevista, pelos próximos anos, assim como a meia dúzia de palavras (Mr. Talese, please, P-A-U-L-A…) e a assinatura que eterniza o encontro nas páginas do livro. With best, always…
(Sobre a palestra de Gay Talese na Editora Abril, em 6 de julho de 2009, durante os Encontros BRAVO! de Jornalismo Literário – http://bravojornalismoliterario.treinaabril.com.br/)
Nova Escola Gestão Escolar

Capa da primeira edição de Nova Escola Gestão Escolar
Toda vez que eu escrevo para a Nova Escola sinto gosto de infância e um orgulho muito grande em poder colaborar para uma publicação que tanto influenciou minha formação.
Hoje chega às bancas de todo o país a revista bimestral Nova Escola Gestão Escolar, para a equipe diretiva (diretor, coordenadores pedagógicos e supervisores, especialmente). Dois textos meus foram publicados nesta primeira edição: uma entrevista com a educadora curitibana (juro que não puxei a sardinha para o estado natal) Heloísa Lück, e um projeto institucional muito bem sucedido em uma escola municipal de Santo André, que revolucionou os hábitos de leitura e escrita dos alunos e de toda a comunidade. Vale a pena conferir!
Sobre jornalistas e tecnologia
Entre uma garfada e outra pensava o quanto sou uma ‘dinossaura’. Na minha época criança brincava na rua e eu passava tardes a fio montando uma casinha de bonecas sobre uma esteira de praia. A coberta da boneca era um echarpe dourado da minha mãe e o berço, um cestinho antigo de pão. Nasci em uma família abastada e tive o alento de ter todos – ou praticamente todos os brinquedos que queria. Tive livros também. Muitos. Os compromissos da escola me faziam ficar horas procurando assuntos em meio a eles. Brincava de escolinha e aprendi a ler antes dos quatro anos. Tinha um diário verde. O computador chegou quand0 eu tinha uns 8 anos. Aquela telona de ‘fósforo verde’. Um 386, um 486 e o milagre do Pentium! Sou, realmente, uma dinossaura.
O celular era vermelho e só pude ver sua cor quando já estava ‘debutando’. Grande, com uma antena exagerada e sinal que vinha junto com a sorte. Eu sou do tempo em que celular era um telefone móvel.
E agora o computador está na palma das mãos e os celulares servem para tudo, inclusive para telefonar.
Os jornalistas estão pedindo socorro! Somos todos reféns das ferramentas, mas não paramos para pensar sobre elas. Qual o sentido de um site? De um aplicativo para o IPhone? Qual o sentido de twittar? De postar fotos no Flickr ou criar um perfil no Facebook? Temos que criar sites, mas para quê? Para quem? Por quê? Como? Vivemos nas tecnologias e esquecemos do lead. Aprendemos a técnca jornalística, estudamos teoria pesada na graduação e ainda somos dinossauros. A academia nos coloca um abismo entre teoria e práxis. Fomos engolidos pela tecnologia sem saber refletir sobre ela.
Dia desses ouvi um jornalista dizer que “Internet tem que ter texto curto. O conteúdo não pode ser cansativo”. E o hipertexto? Princípio fundamental da linguagem de internet! Texto não tem que ser curto. Tem que ser editado! É uma nova organização de conteúdos, e não o reinado do reducionismo. Homens constroem conhecimentos, ampliam horizontes… Não é assim que deve ser? Com um computador – aliás, desenvolvido por homens – a premissa também é válida.
Corre, também, o ‘mito’ de que as revistas e jornais vão acabar em detrimento das redes. Cada meio tem sua função. Revista não tem que querer imitar internet e vice-versa. Onde estão as grandes reportagens? Não há mais espaços para elas nas revistas?
As redes são hiperferramentas. Genial! Mas as coisas sempre andaram sem elas. Com o computador o mundo decolou, é claro, mas, em contrapartida, a burocracia continua a mesma para mostrar que ainda somos humanos, demasiado humanos.
Princípio número um do fazer jornalístico: desconfie quando os fatos estão com muita facilidade na palma das mãos. As redes agregam complementos (utilíssimos) a conhecimentos que devem ser adquiridos fora delas. É preciso investigar, fuçar, falar, pesquisar. A informação na internet está com todos e não está com ninguém. Há coisas sensacionais e outras pouco críveis navegando por aí. Sem conhecimento prévio não há ‘seleção natural’.
Para jornalistas, as tecnologias não são o fim em si! É preciso pensar o que fazer com cada uma das ferramentas disponíveis. Canoa de concreto vai para o fundo do rio (bem piegas, mas ‘bem verdade’). Para quem nasceu de dentro de um computador, cuidado com os valores primeiros. Cuidado com os textos, com imagens, com o que se diz. Aliem teoria e prática. Não esqueçam dos itens simples que sempre fizeram com que o bom jornalismo acontecesse. Para os dinossauros (carinhosamente) que comandam o trabalho dos jovens, não se desesperem. As tecnologias estão aí e devem ser usadas. Com parcimônia. Cada coisa em seu lugar e a seu tempo.
*Ainda se pode aprender montando casinhas sobre esteiras. Pode ser um bom processo criativo e ‘artesanal’ de ‘arquitetura da informação’.
**Ainda aprendo muito com as tecnologias. As casinhas já apareceram nas redes há algum tempo, mas tenho arranha-ceús a construir. Basta escolher a melhor ferramenta, com e sem computadores. Só não posso deixar minha era geológica ir embora e me resignar ao posto de fóssil, sem opções ou ‘ajuda dos universitários’.
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