Uma Orquestra no front
Revista BRAVO! | Agosto/2009
Em turnê pelo Brasil, a Filarmônica de Israel não limita sua atuação às salas de concerto. Tocando em zonas de conflito, o conjunto tem uma atividade política incomum no mundo da música clássica
Por Paula Nadal

Ao piano, Leonard Bernstein rege a Filarmônica de Israel em novembro de 1948. Por sua aura pacifista, o conjunto nunca foi alvo de atentados
A foto ao lado foi tirada em novembro de 1948. Em meio a 5 mil soldados e tanques de guerra, o jovem maestro Leonard Bernstein, então com apenas 30 anos, regia do piano a recém-nomeada Orquestra Filarmônica de Israel em plena frente de batalha. Na ocasião, Beer Sheva, cidade localizada no deserto do Neguev, havia sido recuperada pelas tropas israelenses após intenso conflito com o Egito. A Filarmônica de Israel é um raro caso de orquestra que, de tempos em tempos, deixa a sala de concertos para tocar em zonas de conflito. Atualmente, o conjunto — que se apresenta em várias cidades brasileiras neste mês de agosto — tem como prioridade auxiliar no processo de paz entre palestinos e israelenses. Antigo defensor de um acordo no Oriente Médio, o regente titular da Filarmônica, o indiano Zubin Mehta, sonha um dia reger o “concerto da paz”. Ele até já escolheu a música que tocaria na ocasião: a Quinta de Beethoven.
A história do mais político dos conjuntos sinfônicos começou em 1934, quando o violinista judeu Bronislaw Huberman, nascido na Polônia, deu os primeiros passos para a criação da chamada Orquestra Palestina (o Estado de Israel ainda não havia sido criado). Ele convenceu 75 músicos judeus perseguidos pelo nazismo — em sua maioria, spallas e solistas de grandes orquestras, vindos de países como Alemanha, Polônia, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos e Suíça — a imigrar para a Palestina. Também foi capaz de convencer o lendário maestro Arturo Toscanini — que nessa época morava nos Estados Unidos por ser abertamente antifascista — a reger os primeiros concertos da nova orquestra. A première aconteceu em 26 de dezembro de 1936, em um espaço organizado próximo ao porto de Tel Aviv, diante de um público de 3 mil pessoas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a Orquestra Palestina firmou-se no Oriente Médio. Tocou em Tel Aviv, Jerusalém e Haifa. Foi quando começou, também, sua atuação em zonas de conflito. O conjunto promoveu concertos ao ar livre, em pleno deserto, para tropas de soldados judeus e das forças aliadas. O Estado de Israel nasceu em maio de 1948, e, com ele, a Orquestra Palestina tornou-se oficialmente a Filarmônica de Israel, ou IPO, abreviatura de seu nome em inglês. Na cerimônia de proclamação do Estado, lá estavam os músicos para executar a Hatikva — o hino nacional do novo país —, tendo como cenário o Museu de Tel Aviv. Nos anos que se seguiram, a IPO consolidou-se como embaixadora cultural da nova nação. Excursionou pelos Estados Unidos e Canadá com Bernstein, fez a primeira turnê pela Europa e conheceu a China sob a batuta daquele que seria um dos grandes mentores da Filarmônica até os dias atuais, Zubin Mehta. “A orquestra promoveu a diplomacia e chegou a lugares onde o governo de Israel não era capaz de chegar. Tudo em nome da paz”, disse o maestro indiano em entrevista a BRAVO!.
Em 1967, as fronteiras com o Egito e com a Jordânia foram bloqueadas por tropas árabes. Israel atacou, e, em seis dias de combate intenso, estabeleceram-se novas frentes de batalha. A Guerra dos Seis Dias deixou Israel sem luz, e os concertos da Filarmônica passaram a ser matinais. Uma das apresentações mais emblemáticas deu-se logo após o fim do conflito, quando Bernstein regeu no monte Scopus, em Jerusalém, a Sinfonia nº 2 de Mahler, intitulada Ressurreição, com solos do violinista Isaac Stern e a presença dos cabeças do governo israelense. Reconhecida como uma entidade pacífica, a orquestra jamais sofreu algum ataque ou atentado. Durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, a IPO continuou tocando mesmo nas noites em que havia toque de recolher. A casa do conjunto, o Mann Auditorium, atravessou incólume as intifadas de 2000 e 2008.
Nascido no mesmo ano da Filarmônica de Israel, Zubin Mehta é diretor artístico da orquestra desde 1969. Ele chegou a Tel Aviv em um avião carregado de munição. “Quando entrei no avião, vi as caixas, mas não sabia do que se tratava. Descobri que eram balas e explosivos quando já estávamos no ar”, lembra o maestro. Em suas mãos, o conjunto decidiu tocar pela primeira vez em Berlim. Zubin Mehta regeu a Hatikva a 500 metros do Reichstag — o palácio do Parlamento alemão, de onde saiu boa parte das diretrizes para o massacre contra os judeus no Holocausto. Mehta quebrou outro tabu em 1981, quando dedidiu tocar em Israel um trecho de Tristão e Isolda, obra-prima de Richard Wagner — músico cujas ideias antissemitas ajudaram a inspirar o nazismo. Antes da execução, o maestro fez um breve discurso alegando que todo tipo de música deveria ser interpretado no país. O combinado era que os instrumentistas não reagissem às manifestações da plateia. Logo no início da execução, várias pessoas gritaram. Algumas se retiraram do concerto, e um sobrevivente do Holocausto chegou a levantar-se, abrir a camisa e mostrar cicatrizes sob gritos de horror. Mesmo assim, a obra foi executada até o final.
Esta será a sétima vez em que o conjunto faz apresentações em cidades brasileiras. Serão, ao todo, nove concertos (leia ao lado). No programa estão as Sinfonias nº 6 e nº 7 de Beethoven e as obras Don Juan e As Aventuras de Till Eulenspiegel, de Richard Strauss. Daqui, a Orquestra segue para mais oito concertos na Argentina, no Uruguai e no Chile.
Paula nadal é jornalista.
ONDE E QUANDO
Orquestra Filarmônica de Israel, sob regência de Zubin Mehta. Paulínia/SP: 8 e 12/8, às 20h, no Teatro Municipal de Paulínia (av. Prefeito José Lozano de Araújo, 1.551, tel. 0++/19/4062-0121); 16/8, às 16h, no Parque Brasil 500 (tel. 0++/19/3844-7488); São Paulo/SP: 9/8, às 20h (concerto beneficente da Congregação Israelita Paulista), e 10 e 11/8, às 21h, na Sala São Paulo (pça. Júlio Prestes, s/nº, tel. 0++/11/3323-3966). Ribeirão Preto/SP: 15/8, às 21h, no Teatro Pedro II (r. Álvares Cabral, 370, tel. 0++/16/3977-8111). Rio de Janeiro/RJ: 13/8, no Teatro Oi Casagrande (r. Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon, tel. 0++/21/2511-0800). Curitiba/PR: 17/8, às 20h30, no Teatro Positivo (r. Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300, Campo Comprido, tel. 0++/41/3317-3000).
Fim da Era Neschling

O maestro John Neschling, em charge publicada pela revista Veja SP
Em junho do ano passado, o maestro John Neschling – da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo - anunciou sua não renovação de contrato para 2010. Para não deixá-lo mudar de idéia, o Conselho da Fundação OSESP decidiu antecipar a despedida de seu homem da batuta. De nada adiantaram as conversas entre Neschling e Pedro Moreira Salles. Fernando Henrique Cardoso assinou uma carta datada de 20 de janeiro, parabenizando Neschling pelo trabalho realizado e dizendo “au revoir, chef d’orchestre!”. O maestro, que está na Suiça, recebeu a carta por e-mail e informou que só vai se manifestar a respeito depois de voltar ao Brasil, no final da próxima semana. Talvez, até lá, o nome que substituirá nosso amigo John já tenha sido anunciado. Informações oficiais divulgadas no site da OSESP apontam para um processo seletivo em fase final.
A pergunta que fica no ar é: quem será o novo maestro? Eu apostaria em Alex Klein, o oboísta gaúcho que já passou por orquestras como a Chicago Symphony, uma das big five americanas. Façam suas apostas! Desta vez, as palmas e gritos de “fica, fica!”, que ouvi boa parte do público da Sala São Paulo entoar no último concerto da temporada 2008, foram abafados pelas decisões políticas e, não se pode negar, um tanto sensatas, dos dirigentes da Orquestra.
Tudo precisa de renovação. Embora o método não tenha me parecido o mais adequado – não que Neschling já não tenha utilizado uma metodologia bem semelhante em algumas de suas ações no passado – a mudança ali era providencial para que a Orquestra, que hoje conta com bons músicos, aprimore seu nível técnico e artístico. Como regente, John Neschling sempre foi um exímio administrador, convenhamos, sem jamais menosprezar as qualidades do maestro. É um profissional de ótimo repertório e que, sem dúvidas, tirou a OSESP do limbo e a fez aparecer para o mundo.
Agora, é chegada a hora de a OSESP mostrar que pode, sim, andar sozinha. Consequência, sem dúvidas, de uma era que acaba de chegar ao fim e, espero, não seja esquecida.
Abaixo, o link para o comunicado oficial publicado no site da Orquestra: http://www.osesp.art.br/novo/ultimasnoticias/ComunicadoOficial.aspx
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