Impressões Seresteiras

Uma Orquestra no front

Publicado em BRAVO!, Jornalismo por paulanadal em agosto 19, 2009

Revista BRAVO! | Agosto/2009

Em turnê pelo Brasil, a Filarmônica de Israel não limita sua atuação às salas de concerto. Tocando em zonas de conflito, o conjunto tem uma atividade política incomum no mundo da música clássica

Por Paula Nadal

Ao piano, Leonard Bernstein rege a Filarmônica de Israel em novembro de 1948. Por sua aura pacifista, o conjunto nunca foi alvo de atentados

Ao piano, Leonard Bernstein rege a Filarmônica de Israel em novembro de 1948. Por sua aura pacifista, o conjunto nunca foi alvo de atentados

A foto ao lado foi tirada em novembro de 1948. Em meio a 5 mil soldados e tanques de guerra, o jovem maestro Leonard Bernstein, então com apenas 30 anos, regia do piano a recém-nomeada Orquestra Filarmônica de Israel em plena frente de batalha. Na ocasião, Beer Sheva, cidade localizada no deserto do Neguev, havia sido recuperada pelas tropas israelenses após intenso conflito com o Egito. A Filarmônica de Israel é um raro caso de orquestra que, de tempos em tempos, deixa a sala de concertos para tocar em zonas de conflito. Atualmente, o conjunto — que se apresenta em várias cidades brasileiras neste mês de agosto — tem como prioridade auxiliar no processo de paz entre palestinos e israelenses. Antigo defensor de um acordo no Oriente Médio, o regente titular da Filarmônica, o indiano Zubin Mehta, sonha um dia reger o “concerto da paz”. Ele até já escolheu a música que tocaria na ocasião: a Quinta de Beethoven.

A história do mais político dos conjuntos sinfônicos começou em 1934, quando o violinista judeu Bronislaw Huberman, nascido na Polônia, deu os primeiros passos para a criação da chamada Orquestra Palestina (o Estado de Israel ainda não havia sido criado). Ele convenceu 75 músicos judeus perseguidos pelo nazismo — em sua maioria, spallas e solistas de grandes orquestras, vindos de países como Alemanha, Polônia, Holanda, Inglaterra, Estados Unidos e Suíça — a imigrar para a Palestina. Também foi capaz de convencer o lendário maestro Arturo Toscanini — que nessa época morava nos Estados Unidos por ser abertamente antifascista — a reger os primeiros concertos da nova orquestra. A première aconteceu em 26 de dezembro de 1936, em um espaço organizado próximo ao porto de Tel Aviv, diante de um público de 3 mil pessoas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Orquestra Palestina firmou-se no Oriente Médio. Tocou em Tel Aviv, Jerusalém e Haifa. Foi quando começou, também, sua atuação em zonas de conflito. O conjunto promoveu concertos ao ar livre, em pleno deserto, para tropas de soldados judeus e das forças aliadas. O Estado de Israel nasceu em maio de 1948, e, com ele, a Orquestra Palestina tornou-se oficialmente a Filarmônica de Israel, ou IPO, abreviatura de seu nome em inglês. Na cerimônia de proclamação do Estado, lá estavam os músicos para executar a Hatikva — o hino nacional do novo país —, tendo como cenário o Museu de Tel Aviv. Nos anos que se seguiram, a IPO consolidou-se como embaixadora cultural da nova nação. Excursionou pelos Estados Unidos e Canadá com Bernstein, fez a primeira turnê pela Europa e conheceu a China sob a batuta daquele que seria um dos grandes mentores da Filarmônica até os dias atuais, Zubin Mehta. “A orquestra promoveu a diplomacia e chegou a lugares onde o governo de Israel não era capaz de chegar. Tudo em nome da paz”, disse o maestro indiano em entrevista a BRAVO!.

Em 1967, as fronteiras com o Egito e com a Jordânia foram bloqueadas por tropas árabes. Israel atacou, e, em seis dias de combate intenso, estabeleceram-se novas frentes de batalha. A Guerra dos Seis Dias deixou Israel sem luz, e os concertos da Filarmônica passaram a ser matinais. Uma das apresentações mais emblemáticas deu-se logo após o fim do conflito, quando Bernstein regeu no monte Scopus, em Jerusalém, a Sinfonia nº 2 de Mahler, intitulada Ressurreição, com solos do violinista Isaac Stern e a presença dos cabeças do governo israelense. Reconhecida como uma entidade pacífica, a orquestra jamais sofreu algum ataque ou atentado. Durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, a IPO continuou tocando mesmo nas noites em que havia toque de recolher. A casa do conjunto, o Mann Auditorium, atravessou incólume as intifadas de 2000 e 2008.

Nascido no mesmo ano da Filarmônica de Israel, Zubin Mehta é diretor artístico da orquestra desde 1969. Ele chegou a Tel Aviv em um avião carregado de munição. “Quando entrei no avião, vi as caixas, mas não sabia do que se tratava. Descobri que eram balas e explosivos quando já estávamos no ar”, lembra o maestro. Em suas mãos, o conjunto decidiu tocar pela primeira vez em Berlim. Zubin Mehta regeu a Hatikva a 500 metros do Reichstag — o palácio do Parlamento alemão, de onde saiu boa parte das diretrizes para o massacre contra os judeus no Holocausto. Mehta quebrou outro tabu em 1981, quando dedidiu tocar em Israel um trecho de Tristão e Isolda, obra-prima de Richard Wagner — músico cujas ideias antissemitas ajudaram a inspirar o nazismo. Antes da execução, o maestro fez um breve discurso alegando que todo tipo de música deveria ser interpretado no país. O combinado era que os instrumentistas não reagissem às manifestações da plateia. Logo no início da execução, várias pessoas gritaram. Algumas se retiraram do concerto, e um sobrevivente do Holocausto chegou a levantar-se, abrir a camisa e mostrar cicatrizes sob gritos de horror. Mesmo assim, a obra foi executada até o final.

Esta será a sétima vez em que o conjunto faz apresentações em cidades brasileiras. Serão, ao todo, nove concertos (leia ao lado). No programa estão as Sinfonias nº 6nº 7 de Beethoven e as obras Don JuanAs Aventuras de Till Eulenspiegel, de Richard Strauss. Daqui, a Orquestra segue para mais oito concertos na Argentina, no Uruguai e no Chile.

Paula nadal é jornalista.

ONDE E QUANDO
Orquestra Filarmônica de Israel, sob regência de Zubin Mehta. Paulínia/SP: 8 e 12/8, às 20h, no Teatro Municipal de Paulínia (av. Prefeito José Lozano de Araújo, 1.551, tel. 0++/19/4062-0121); 16/8, às 16h, no Parque Brasil 500 (tel. 0++/19/3844-7488); São Paulo/SP: 9/8, às 20h (concerto beneficente da Congregação Israelita Paulista), e 10 e 11/8, às 21h, na Sala São Paulo (pça. Júlio Prestes, s/nº, tel. 0++/11/3323-3966). Ribeirão Preto/SP: 15/8, às 21h, no Teatro Pedro II (r. Álvares Cabral, 370, tel. 0++/16/3977-8111). Rio de Janeiro/RJ: 13/8, no Teatro Oi Casagrande (r. Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon, tel. 0++/21/2511-0800). Curitiba/PR: 17/8, às 20h30, no Teatro Positivo (r. Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5.300, Campo Comprido, tel. 0++/41/3317-3000).

A Temporada de Caça ao Maestro

Publicado em BRAVO! por paulanadal em abril 7, 2009

Ela começa no dia 9 deste mês, quando o Comitê de Busca da Osesp se reúne pela primeira vez. Está aberta a sucessão de John Neschling, a mais momentosa da história das orquestras brasileiras

Por Paula Nadal e Gabriela Rassy (com as mãos de João Gabriel de Lima. Publicado em BRAVO! – abril/2009)

A escolha do maestro titular numa grande orquestra é um assunto tão emocionante quanto uma eleição presidencial. Há muita política, luta às vezes desleal pelo poder e lances dramáticos. Quanto maior a orquestra, maior o frisson. Em 2002, a disputa pela sucessão de Claudio Abbado na Filarmônica de Berlim, a mais famosa orquestra do mundo, ocupou páginas e páginas dos jornais planeta afora. A batuta ficou entre o argentino Daniel Barenboim e o inglês Simon Rattle. Como lá o voto dos músicos é soberano, os dois regentes se dedicaram a uma encarniçada campanha eleitoral. Mesmo adepto do estilo corpo-a-corpo — gastava tardes tomando cafezinhos com os músicos no prédio da filarmônica —, Barenboim perdeu a disputa para o britânico, que reina no pódio até hoje. Aos 54 anos, Rattle é um dos maestros mais jovens a dirigir uma orquestra de primeiro time. O mesmo ano de 2002 assistiu à sucessão na mais glamorosa filarmônica do mundo, a de Nova York. Lá, os contatos e a fama do veterano Lorin Maazel, então com 72 anos, pesaram na escolha do substituto do alemão Kurt Masur.

No Brasil, pela primeira vez, uma sucessão do tipo — na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp — se torna um assunto mobilizador. Pela simples e boa razão de que, pela primeira vez na história, o país tem um conjunto sinfônico de primeiro nível. A orquestra montada pelos maestros brasileiros John Neschling e Roberto Minczuk chegou a receber menção honrosa — um “up and coming“, que pode ser traduzido por “em ascensão” — numa reportagem da revista britânica Gramophone, a bíblia da área. Ainda não dá para dizer que a Osesp está entre as melhores do planeta, que são as chamadas “Big 5″ americanas (Chicago, Nova York, Boston, Filadélfia e Cleveland), as filarmônicas de Berlim e Viena e a Concertgebouw de Amsterdã (recentemente, esta última foi considerada a melhor do mundo pela Gramophone, desbancando a então soberana Filarmônica de Berlim). Mas é inegável que a Osesp chegou mais longe do qualquer outro conjunto já formado no país. Nos anos 70 e 80, as duas maiores orquestras do Brasil, a Estadual de São Paulo e a Sinfônica Brasileira, eram dirigidas por dois regentes de nível internacional, Eleazar de Carvalho e Isaac Karabtchevsky, respectivamente. Faltou aos maestros, no entanto, a estrutura para transformá-las em conjuntos de primeiro nível. E estrutura é o que não falta à Osesp, com seu orçamento de R$ 68 milhões por ano (R$ 43 milhões vindos do governo do estado e R$ 25 milhões provenientes de patrocínios, assinaturas e bilheteria), os músicos mais bem pagos do país e a suntuosa Sala São Paulo, casa orquestral no nível das melhores do mundo.

Desde que o diretor artístico e regente titular John Neschling foi demitido por e-mail no último mês de janeiro, a sucessão na Osesp passou a ocupar as páginas dos jornais. É prematuro apontar nomes, mas pode-se dizer que o processo de escolha será deflagrado no dia 9 deste mês, data marcada para a primeira reunião do chamado “Comitê de Busca” da Osesp. Esse comitê é formado por dois integrantes do conselho da orquestra, o economista Pérsio Arida e o editor Luiz Schwarcz; pelo diretor executivo da Osesp, Marcelo Lopes; por dois consultores estrangeiros — o americano Henry Fogel, ex-presidente da Liga Americana de Orquestras, e o inglês Timothy Walker, diretor artístico e executivo da Filarmônica de Londres; e dois representantes dos músicos, o trombonista Darrin Milling e outro nome, ainda sem definição. Cabe ao Comitê de Busca apresentar ao conselho que dirige a orquestra nomes de possíveis maestros. De posse da lista, o conselho decidirá soberanamente. A fumaça branca deverá ser lançada da chaminé da Sala São Paulo em meados de 2010. A partir de conversas com integrantes do conselho, é possível identificar as diretrizes que pautarão o processo de escolha.

A primeira pergunta é sobre o modelo de gestão da orquestra. Durante a administração de John Neschling, vigorou o sistema em que uma única pessoa acumula a coordenação artística e administrativa. Esse modelo é adotado por poucos conjuntos sinônicos mundo afora, entre eles as filarmônicas de Berlim e Nova York — que talvez tenham os maestros mais poderosos do planeta. Esse tipo de gestão funcionou durante os anos de implantação da Osesp, mas nos bastidores há um consenso de que isso não vai continuar. Na entrevista coletiva realizada no mês passado sobre o assunto, o banqueiro Pedro Moreira Salles, integrante do conselho, disse: “Não sabemos ainda se o poder vai ser dividido 50% a 50% entre regente e diretor artístico, ou 70% e 30%. Só temos a certeza de que será compartilhado e de que cada um vai saber contribuir da melhor forma”. A partir disso, é possível deduzir que o modelo de gestão será parecido com o das orquestras americanas, como a Sinfônica de Chicago, em que o maestro titular atua cerca de dez semanas por ano e não convive no dia-a-dia com os músicos, deixando essa função para um regente assistente. Ele também não cuida da  administração da orquestra. É uma espécie de modelo intermediário entre o “governo forte” de Berlim e a “anarquia” da Filarmônica de Viena. No conjunto austríaco, não existe maestro titular e a orquestra trabalha sempre com regentes convidados. A possibilidade de a Osesp ter um modelo parecido com o vienense é descartada pelos integrantes do conselho.

A segunda questão tem a ver com o perfil do regente. Existem basicamente três possibilidades. A primeira foi levantada logo depois da demissão de Neschling: contratar um maestro do primeiríssimo time, com o objetivo de colocar a Osesp definitivamente no mapa mundial. O nome mais ouvido foi o do argentino Daniel Barenboim, que forma com o inglês Simon Rattle e o italiano Claudio Abbado a santíssima trindade das superestrelas da regência (se houvesse uma quarta vaga, ela seria do letão Mariss Jansons, titular da Concertgebouw de Amsterdã). Essa alternativa esbarra numa quase intransponível restrição orçamentária. Embora seja a orquestra mais rica de todos os tempos no Brasil, a Osesp ainda não tem cacife para bancar um salário na casa dos R$ 4 milhões anuais, que é o que Barenboim recebia na Sinfônica de Chicago, da qual se desligou em 2006 (John Neschling recebia R$ 1,4 milhão por ano). A segunda possibilidade seria privilegiar, na escolha, um regente brasileiro. É uma tradição das grandes orquestras nacionais, que raras vezes se deram bem com maestros estrangeiros. A se optar por essa alternativa, os nomes com estatura e currículo seriam Isaac Karabtchevsky, Roberto Minczuk e Fabio Mechetti, atual diretor musical e regente titular da Filarmônica de Minas Gerais.

O mais provável, no entanto, é que a Osesp opte por um nome emergente na cena mundial, sem restrição de nacionalidade. O maestro que recebeu o “mandato-tampão” até 2011, o francês Yan Tortelier, seria uma das possibilidades caso seja essa a diretriz. Outro bastante cotado é o finlandês Osmo Vanska, que vem fazendo um belo trabalho à frente da orquestra americana do estado de Minnesota (é interessante notar que várias estrelas emergentes da regência vêm da Finlândia — a mais consolidada delas é o maestro Esa-Pekka Salonen, que transformou a Filarmônica de Los Angeles na maior aspirante a entrar no time das “Big 5″). Vanska já esteve à frente da Osesp como convidado e deslumbrou os músicos com uma interpretação de alta voltagem emocional da Eroica de Beethoven. “É uma escolha difícil. A Osesp precisa de um regente experiente, mas não tão velho quanto um Kurt Masur, que está prestes a se aposentar”, diz o crítico musical Sérgio Martins, da revista Veja, um dos mais bem informados observadores do mundo da música erudita no Brasil. Está aberta a temporada de caça ao maestro. O Comitê de Busca da Osesp sabe que tem pela frente uma missão de altíssima responsabilidade. De sua escolha depende a continuidade da mais bem-sucedida experiência sinfônica jamais realizada no Brasil. 

Fim da Era Neschling

Publicado em Artes por paulanadal em janeiro 22, 2009
O maestro John Neschling, em charge publicada pela revista Veja SP

O maestro John Neschling, em charge publicada pela revista Veja SP

Em junho do ano passado, o maestro John Neschling – da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo - anunciou sua não renovação de contrato para 2010. Para não deixá-lo mudar de idéia, o Conselho da Fundação OSESP decidiu antecipar a despedida  de seu homem da batuta. De nada adiantaram as conversas entre Neschling e Pedro Moreira Salles. Fernando Henrique Cardoso assinou uma carta datada de 20 de janeiro, parabenizando Neschling pelo trabalho realizado e dizendo “au revoir, chef d’orchestre!”. O maestro, que está na Suiça, recebeu a carta por e-mail e informou que só vai se manifestar a respeito depois de voltar ao Brasil, no final da próxima semana. Talvez, até lá, o nome que substituirá nosso amigo John já tenha sido anunciado. Informações oficiais divulgadas no site da OSESP apontam para um processo seletivo em fase final.

A pergunta que fica no ar é: quem será o novo maestro? Eu apostaria em Alex Klein, o oboísta gaúcho que já passou por orquestras como a Chicago Symphony, uma das big five americanas. Façam suas apostas! Desta vez, as palmas e gritos de “fica, fica!”, que ouvi boa parte do público da Sala São Paulo entoar no último concerto da temporada 2008, foram abafados pelas decisões políticas e, não se pode negar, um tanto sensatas, dos dirigentes da Orquestra.

Tudo precisa de renovação. Embora o método não tenha me parecido o mais adequado – não que Neschling já não tenha utilizado uma metodologia bem semelhante em algumas de suas ações no passado – a mudança ali era providencial para que a Orquestra, que hoje conta com bons músicos, aprimore seu nível técnico e artístico. Como regente, John Neschling sempre foi um exímio administrador, convenhamos, sem jamais menosprezar as qualidades do maestro. É um profissional de ótimo repertório e que, sem dúvidas, tirou a OSESP do limbo e a fez aparecer para o mundo.

Agora, é chegada a hora de a OSESP mostrar que pode, sim, andar sozinha. Consequência, sem dúvidas, de uma era que acaba de chegar ao fim e, espero, não seja esquecida.

Abaixo, o link para o comunicado oficial publicado no site da Orquestra: http://www.osesp.art.br/novo/ultimasnoticias/ComunicadoOficial.aspx

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